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Esquizofrenia Política

Por Leandro Dias: é formado em História pela UFF e editor do blog Rio Revolta. Escreve mensalmente para Pragmatismo Político

No filme “Obrigado por fumar”, Nick Naylor (vivido por Aaron Eckhart) é o porta-voz da “Academia para Estudos do Tabaco”, um grupo de estudos científicos que na prática serve de fachada para o lobby da indústria do cigarro. Durante uma acareação sobre os malefícios do cigarro, Naylor é questionado por um senador se as prioridades do seu grupo de estudos eram afetadas pelo fato de as corporações de cigarro serem os maiores patrocinadores dele. Sr. Naylor responde: “Não. Da mesma forma que, certamente, as contribuições de campanha não afetam o seu mandato” (Thank you for smoking, citado emIMDB).O silêncio irritado do senador que se segue exala o cinismo que se instaura na democracia moderna quando o assunto é o financiamento de candidaturas políticas: é óbvio que as prioridades de um senador financiado por determinados grupos econômicos são afetadas pelos interesses de seus patrocinadores, da mesma forma que um centro de estudos financiado pela indústria do tabaco jamais servirá para dar prejuízo para quem paga suas contas. A lógica já foi denunciada há 150 anos pelo filósofo que adoram odiar: “o governo moderno não é senão um comitê para gerir os negócios comuns de toda a classe burguesa” (Karl Marx, Manifesto Comunista, cap. 1). E não é segredo que a ideia original de parlamento não fosse exatamente democrática, como Eric Hobsbawm escreveu em seu A Era das Revoluções:No geral, o burguês liberal clássico de 1789 (e o liberal de 1789-1848) não era um democrata, mas sim um devoto do constitucionalismo, um Estado secular com liberdades civis e garantias para a empresa privada e um governo de contribuintes e proprietários. (1977, p. 106-107, grifo nosso).

Não há, portanto, cinismo ou dissonância do lobismo em relação aos princípios democráticos. Inclusive, dada a lógica de mercado, é de se supor que, quanto mais rico seja o grupo de interesses privados, maior seja sua influência sobre o parlamento (GILLENS, 2012). Em vista disso, é imensamente importante para um país capitalista que se pretende republicano e transparente estabelecer parâmetros legais para o lobby empresarial, a fim de instituir instrumentos de controle legal sobre a influência de grupos de interesses privados nas políticas públicas.

Não é por acaso que hoje seja difícil encontrar um país capitalista rico em que não haja regulamentação ao lobby. Isto é, a atividade de lobista no interior do parlamento se tornou algo tão reconhecidamente estabelecido que, mesmo nos países onde ela já seria protegida pela liberdade de expressão como os EUA, Alemanha ou no parlamento da União Europeia, fez-se necessário dar transparência e organização ao “mercado de congressistas”. Assim, admite-se que haja, desde que de maneira pública, organizada e legalizada, a influência inevitável de grupos de interesses particulares sobre as decisões dos congressistas. Isso inclusive reforçaria a ilusão de que “qualquer um pode influenciar igualmente o seu parlamentar” e que o eleitor pode fazer a escolha mais “informada”. O afirmado tacitamente é que, sem a regulamentação do lobby, o que reina é a mais rasteira e escusa corrupção, a troca de favores e a concessão de privilégios nos bastidores, exatamente como era na corte real do Ancien Régime que os burgueses liberais vieram a derrubar no final do século XVIII.

Desta maneira, não faltam nos países capitalistas mais ricos cadastros de lobistas e consultorias oficiais, listas oficiais de parlamentares que recebem dinheiro de empresas (indicando inclusive o quanto recebem, como na Áustria), além de relações de grupos de interesse estabelecidos e de parlamentares diretamente a eles vinculados. A existência desse tipo de regulamentação e registro pode gerar – mas geram menos do que deveriam – impedimentos em CPIs, acareações e votações de certas pautas, devido ao conflito de interesses. Por exemplo, se determinado parlamentar recebeu muito dinheiro de planos de saúde privado, ele poderia ser impedido de participar de votações sobre o perdão de dívidas do setor. Na Suíça, por exemplo, explicam a legalidade da atividade:

O “lobby” é parte integrante da nossa democracia. […] Por essa razão, durante a elaboração de uma lei, tenta-se a participação de todas as partes envolvidas e de levar em conta todos os interesses em jogo. O “lobbying” pode então ser considerado um meio para integrar todos os interesses e todas as informações que possam servir à tomada de uma decisão, apoiada por uma ampla maioria. (MOMBELLI, 2013)

Assim, para os defensores do capitalismo democrático-liberal, não deveria suscitar surpresa ou desconfiança o enriquecimento de mandatários que intermediam as relações entre empresários e governos. Não se trata apenas de casos notórios de queridinhos como Bill Clinton, Tony Blair ou Gerhard Schröder, ex-líderes dos EUA, Inglaterra e Alemanha respectivamente, mas também, no caso brasileiro, de Serra, Dirceu, Caiado ou Lula. O principal ativo de figuras como essas é o acesso aos meandros do poder, que lhes confere capacidade de mediação entre os interesses privado e público. Este rei sempre esteve nu. É assim que funciona a democracia liberal e é como ela precisa funcionar. Se “[o] mercado é uma democracia em que cada centavo da direito a um voto” diria o guru capitalista von Mises (1951), sua consequência, portanto, também é absolutamente válida: a democracia é um mercado onde cada voto vale um centavo.

O debate para determinar se o lobby é ético, moral ou não, deveria ser externo aos defensores do capitalismo. Só pode ser considerado antiético e imoral o lobismo desavergonhado que os ex-mandatários citados fizeram (e fazem), somente por quem considera que o poder político não deva ser utilizado de acordo com os interesses do poder econômico privado. Assim, se assumirmos o ponto de vista de que no capitalismo democrático o poder econômico não só existe em separado do poder político, como também deve servir para contê-lo, o lobismo torna-se absolutamente compatível com a ética e a moralidade capitalista. Milton Friedman elabora:

A existência de um mercado livre não elimina, evidentemente, a necessidade de um governo. Ao contrário, um governo é essencial para a determinação das “regras do jogo” e um árbitro para interpretar e pôr em vigor as regras estabelecidas. O que o mercado faz é reduzir sensivelmente o número de questões que devem ser decididas por meios políticos – e, por isso, minimizar a extensão em que o governo tem que participar diretamente do jogo.
[…]
Removendo a organização da atividade econômica do controle da autoridade política, o mercado elimina essa fonte de poder coercitivo. Permite, assim, que a força econômica se constitua num controle do poder político, e não num reforço. (1962, p. 21, tradução nossa)

Se o mercado é a força econômica que deve controlar o poder político, é natural que seus defensores estejam eticamente alinhados com o modo com que esse controle se dá: o lobby. A atuação do lobismo parece ultrajante e imoral somente aos olhos de quem não reconhece que o domínio do poder econômico sobre o poder político é, e precisa ser, um dos principais mecanismos de atuação política do “indivíduo” dentro do capitalismo democrático. Pois, se “o mercado garante liberdade econômica” (Friedman, 1962, p. 21), por extensão, seu domínio do poder político também garantiria liberdade política. Essa imoralidade é, em essência, gêmea da própria normalidade da democracia liberal. No entanto, mesmo Friedman ameaça reconhecer o problema que isso pode gerar: “se o
poder econômico é somado ao poder político, a concentração [de poder] se torna praticamente inevitável (ibidem, p. 22). Esta captura do Estado, suas instituições de controle, já é bem conhecida: “com o tempo, os interesses da indústria, mais organizada que o público, vencem. O regulado acaba dominando o seu órgão regulador” (EIZIRIK, 2012). Um artigo do Instituto Mises Brasil reconhece a problemática desta realidade, embora com a surpresa indignada daquele “último a saber”:

Se há uma coisa que empresário gosta é de sair do mar revolto do mercado e boiar na piscina morna da proteção estatal. As opções do cardápio são várias: formar um cartel legal, ganhar um monopólio, assegurar uma verba, um crédito subsidiado, prestar serviços ao estado, veicular publicidade estatal, formar comitês para regular o setor, proibir a concorrência, fechar as fronteiras ao produto estrangeiro, passar políticas de preço mínimo, ser salvo da falência no último minuto, e tantas outras quanto a imaginação dos políticos permitir. (FONSECA, 2015)

Em vista disso, a regulamentação do lobby serve para dar transparência à raiz corrupta da democracia capitalista: o domínio do poder público pelo dinheiro. O lobby legalizado afirma a transformação de jureda democracia em plutonomia (governo dos ricos), de fato. Definitivamente o rei está nu e a “mão invisível” que controla o Estado está exposta para quem queira ver. Isso, obviamente, nos países capitalistas onde o lobby é mais transparente. Por aqui, tudo isso não passa de uma ficção ou um devir; tratado como ilegal e alienígena à práxis política, a relação entre o poder político e o capital é ainda pintada como as cores românticas e ingênuas de um José de Alencar.

As obscuras relações que a Operação Lava-Jato tem desvendado revelam simplesmente todo o aparato necessário para tentar dar ares de legalidade ao domínio dos empresários num país capitalista onde olobby privado é ilegal e desregulamentado. Consultorias “genéricas”, patrocínios de palestras e viagens de figurões, doações legais de campanha como barganha, “agrados” para intermediadores e laranjas, sobrepreço em contratos, são os tipos de artimanhas “legais” para garantir o que já é sabido em todas as democracias capitalistas do mundo: quem tem o poder econômico precisa ter o poder político.

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E é neste ponto que se revelam a esquizofrenia das cabeças pensantes por trás da Lava-Jato e também a utopia dos liberais hoje a respeito do capitalismo democrático brasileiro. Os esquizofrênicos acreditam ser possível extirpar o lobby empresarial do arcabouço legal e constitucional do capitalismo, enquanto a utopia crê ser possível fundar um governo legitimamente democrático no qual olobby das corporações seja legalizado, mas que de alguma maneira não domine por completo o Estado em prejuízo da maioria. Os esquizofrênicos só se realizariam num regime proto-fascista em que se assume que o Estado deva dominar as decisões do capitalismo, ilusoriamente o fazendo em benefício de todos. Daí o temor que Azevedo, um inegável capitalista liberal, tenha dos caminhos que a Lava-Jato possa estar tomando. E no caso dos liberais, admite-se que o poder político deva se submeter por completo ao poder econômico, instaurando-se uma corporatocracia (ou uma plutonomia) – o que, para os que consideram o mercado mesmo uma “neutra representação democrática da vontade do consumidor”, não seria problema algum, mas algo até desejável.

Assim, a Lava-Jato permanece como ponto fora da curva no mundo democrático-liberal. Na sanha antipetista que a operação consolida, a direita brasileira parece estar viabilizando o sonho ingênuo da esquerda radical: criminalização completa do lobby empresarial dentro de um país capitalista! Com toda a campanha midiática em prol da demonização das doações de campanha, não é surpresa que, mesmo com todo o dinheiro que os partidos antipetistas recebam, quase 75% dos brasileiros estejam contra o financiamento privado de campanha. E que mesmo entre manifestantes antipetistas recentemente nas ruas, o número seja semelhante: entre 70 e 75%.

Se a Operação Lava-Jato tivesse sido montada por “juízes esquerdistas” com a mesma finalidade e gerando o mesmo tipo de consenso – isto é, prender grandes empresários que doam para partidos em troca de favores estatais e criminalizando doações de campanha e lobbies empresariais como compra de favores estatais (que de fato são) – dificilmente seria exaltada pela direita do momento e certamente entraria nas páginas dos mais radicais blogs revolucionários como sinal de que o Golpe Comunista chegou! Nesse cenário, a caça generalizada a empresas que trocam favores e dinheiro com o governo provavelmente geraria enorme temor nos mesmos que hoje a aclamam: a operação seria tomada como uma campanha de “caça a empresários”, usando o pretexto de “caça à corrupção dos lobbies” para atacar a propriedade privada nacional! A Lava-Jato estaria instaurando um ”terror republicano contra o direito político dos empresários”. Poderiam até acusar a justiça rápida, dura e implacável de Sérgio Moro exatamente como um paralelo tupiniquim das ações de Robespierre: “O Terror não é nada senão a veloz, severa e inflexível justiça” (ROBESPIERRE, 1794, tradução nossa).

Para além da ficção, a completa ausência de paradigmas legais sólidos para que o Capital tenha segurança jurídica para dominar o parlamento a seu favor, como o faz especialmente nos países ausentes de tradição trabalhista, traz à tona o nosso mais importante déficit liberal-republicano: o capitalista brasileiro está sujeito à vontade personalista dos próprios agentes políticos que dominam o Estado. Estes que determinam se sua contribuição política é legal ou não.

Não é por acaso que o número de cargos nomeados aqui seja estarrecedor em todos os níveis de poder: é a maneira mais eficaz de o poder político barganhar o seu quinhão com o poder econômico, sempre emulando o formato patrimonialista e clientelista do Estado capitalista Ancien Régime e, também, do capitalista aparelhar os agentes fiscalizadores de seu próprio setor produtivo. “Aos amigos tudo. Aos inimigos: a lei”. Fato este já apontado inclusive por antipetistas de carteirinha como Reinaldo Azevedo:

Claro que a ideia [de restringir doações privadas de campanha], declarada ou não, era não retirar o poder discricionário dos burocratas e políticos sobre a decisão de quem ganharia o direito de fazer a obra. (AZEVEDO, 2015).

Não é de espantar que a lógica desbaratada na Operação Lava-Jato se encontra em uma série de casos anteriores, sob praticamente qualquer força política com algum domínio do Estado, desde a ditadura civil-militar e sua relação com empreiteiras (CAMPOS, 2014) e empresariado (MIROW, 1977), atéEduardo Cunha – Planos de Saúde, passando pela promiscuidade do caso PSDB – Alstom nos metros de São Paulo, ou da Delta-Cavendish-PMDB em obras no Rio de Janeiro, e não menos importante, no óbvio prejuízo à Petrobrás causado pelo lobby empresarial tocado por PT, PMDB e PP principalmente. O próprio empresário Ricardo Semler, psdebista, já denunciou como era a situação em anos anterior. E mais além, quem poderia dizer seguramente que as doações privadas dos bancos não influenciam sua relação com o Estado? Não poderiam em parte explicar a massacrante política de juros que, ano a ano, dá lucros recordes apenas ao setor financeiro?

Portanto, o sonho ingênuo da esquerda radical pode se tornar um pesadelo de retrocesso. Para permanecer o poder personalista, patrimonialista e discricionário da aristocracia parlamentar que temos em vigência, a Lava-Jato precisa perseguir seletivamente. No caso o PT e seus aliados momentâneos no empresariado precisam ser sacrificados num festival de cinismo e desvios processuais. Para não ruir perigosamente a própria lógica da democracia liberal, a Lava Jato jamais poderá denunciar radicalmente a dinâmica entre doações de campanha e obras estatais. O lobby é
condição sine qua non do funcionamento de uma democracia-mercado, e o poder político pode – e deve – estar à venda. E, por não poder ser genaralizada e flertar com um proto-fascismo seletivo, a Lava-Jato caminhará para reforçar o poder esquizofrênico do capitalismo personalista brasileiro: “sim, o empresariado pode dominar o Estado, mas apenas nas condições que os políticos que o controlam de fato querem”.

E aos petistas que ainda resistem cabe uma escolha de Sofia: admitir que seus líderes estão igualmente inseridos na imoralidade lobista do capitalismo-liberal como todos os partidos, abrindo mão definitivamente de seu discurso “transformador”, mas com isso lutar pela legalização dos lobbies na esperança de absolver suas lideranças. Ou reafirmar o incerto e arcaico caráter discricionário e Ancien Regime na relação entre poder político e poder econômico, defendendo que estão sendo perseguidos pela “elite” apenas por estarem dando um “rumo desenvolvimentista” ao capitalismo nacional ao alinhar grandes empresários com o “interesse do povo” que supostamente representariam. Ambas escolhas ideologicamente terríveis.

*Leandro Dias é formado em História pela UFF e editor do blog Rio Revolta. Escreve mensalmente para Pragmatismo Politico.

Bibliografia:

AZEVEDO, R.: Financiamento de Campanha. Veja. Blog do Reinaldo Azevedo, 12 jul. 2015. Disponível em: http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/tag/financiamento-de-campanha. Acesso em 21 ago. 2015.

CAMPOS, P. H. P. Estranhas Catedrais: as empreiteiras brasileiras e a ditadura civil-militar. Niteroi: Editora UFF, 2014.

CBN VITÓRIA. Protesto em Vitória: 71% querem o impeachment da presidente Dilma. Gazeta Online. Reportagens. 18 ago. 2015. Disponível em: http://gazetaonline.globo.com/_conteudo/2015/08/cbn_vitoria/reportagens/3906202-protesto-em- vitoria-71-querem-o-impeachment-da-presidente-dilma.html. Acesso em 21 ago. 2015.

CORREA, Alexandre. Investigação contra Lula pode ser ‘exemplo para mundo’. BBC Brasil, 28 jul. 2015. Disponível em: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/07/150727_lula_acaolegal_analistas_pai_ac.shtml. Acesso em 21 ago. 2015.

ENGELS, F.; MARX, K. O Manifesto Comunista. Londres: 1848. Capitulo 1. Disponível em:https://www.marxists.org/portugues/marx/1848/ManifestoDoPartidoComunista/cap1.htm. Acesso em 21 ago. 2015.

EIZIRIK, Nelson. Teoria da Captura e as Agências Reguladoras. Folha de São Paulo, 13 de Dezembro de 2012, Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/83453-teoria-da-captura-e-as-agencias-reguladoras.shtml. Acesso em 21 ago. 2015.

FONSESA, J. P. Grandes Empresas odeiam o Livre Mercado. [On-line] Instituto Ludwig von Mises Brasil, 17 ago. 2015. Disponível em: http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1946. Acesso em 21 ago. 2015.

FRIEDMAN, M. Capitalism and freedom. Chicago: University of Chicago Press, 1962.

GILLENS, M. Affluence and Influence: Inequality and Political Power in America. Princeton, NJ: Princeton University Press, 2012.

HOBSBAWN, E. A Era das Revoluções. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2009.

MIROW, K. R. A Ditadura dos Cartéis. Anatomia de um Subdesenvolvimento. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977.

MISES, L. von. “Planned Chaos”. In: _______. Socialism: an economic and sociological analysis. New Haven: Yale University Press, 1951. Disponível em: https://mises.org/library/planned-chaos-0. Acesso em 21 ago. 2015.

MOMBELLI, A. O poder dos lobbies na Suíça. Swissinfo.ch, 28 jun. 2013. Disponível em:http://www.swissinfo.ch/por/grupos-de-interesse_o-poder-dos-lobbys-na-su%C3%AD%C3%A7a/36275180. Acesso em 21 ago. 2015.

OBRIGADO POR FUMAR. EUA, 2005. In: IMDB. Quotes. [On-line] Disponível em:http://www.imdb.com/title/tt0427944/quotes. Acesso em 21 ago. 2015.

ROBESPIERRE, M. Sobre los princípios da moral política. Texto de discurso pronunciado el 18 Pluvioso, año II, 5 de febereo de 1794. Disponível em: https://www.marxists.org/espanol/tematica/cienpol/robespierre/moralpolitica.htm. Acesso em 21 ago. 2015.

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Deputado ironiza atriz que chamou Brasil de “País de merda”

Deputado publica história em quadrinhos para ironizar revolta de atriz global que, ao ser barrada na Receita Federal, chamou o Brasil de ‘País de merda’

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Imagem publicada pelo deputado Paulo Teixeira para ilustrar revolta de atriz global na Receita Federal

O deputado federal Paulo Teixeira (PT-SP) usou sua página do Facebook para ironizar a recente polêmica envolvendo a atriz Thaila Ayala, que, no início da semana, reclamou ao ser parada na Receita Federal de um aeroporto brasileiro (saiba mais sobre o caso aqui).

“Depois de ser obrigada a pagar os impostos sobre o produto não declarado, uma atriz parada na Receita Federal alertou que voltou ao Brasil, mas está ‘desesperada para ir embora porque é um país de muita injustiça!’ Acho que nesse caso ela não fazia referência às injustiças sociais, que vem sendo combatidas”, escreveu o parlamentar sobre o caso.

“É preciso esclarecer que sonegar imposto e fraudar a Receita Federal são graves e também representam formas de corrupção. A estimativa é de que o Brasil deixe de arrecadar 500 bilhões de reais por ano com a sonegação, colocando o país na segunda colocação entre os maiores sonegadores do mundo. Este valor é sete vezes maior que o custo anual médio de corrupção”, completou.

Junto ao depoimento, Teixeira publicou uma história em quadrinhos que estaria ilustrando a situação pela qual Ayala teria passado. “Precisamos combater todas as formas de corrupção para avançarmos na direção de um país melhor que queremos. Corruptos, corruptores e sonegadores fiscais não devem ser tolerados”, finalizou.

A polêmica com a atriz aconteceu quando ela, ao chegar ao Brasil de uma viagem internacional, foi parada por portar um computador que não estava corretamente declarado e, segundo ela, foi obrigada a pagar uma taxa adicional. Na ocasião, usou o Snapchat (aplicativo em que as mensagens publicadas são automaticamente excluídas após algum tempo) para reclamar.

“Parabéns Brasil. Parabéns você que mora nesse país de me*** e é parada na Receita Federal e tem que pagar pela segunda vez seu computador! Em que país você chega e tem que pagar duas vezes pela mesma coisa porque um funcionário escreveu errado a sua declaração? Você chega já desesperada para ir embora porque é um país de muita injustiça! Simplesmente somos assaltados diariamente!”, disse ela. “Toda vez que eu chego no Brasil no percurso aeroporto para minha casa eu coloco o passaporte dentro da minha calça porque se eu for assaltada ele pode roubar tudo, menos o passaporte, para eu vazar”.
Terra Magazine

Os dilemas da ética

Por David Cohen, Revista Exame.
Fonte:
http://exame.abril.com.br/revista-exame/edicoes/792/noticias/os-dilemas-da-etica-m0052144

Poucos assuntos têm sido tão discutidos nas empresas do mundo inteiro quanto a ética corporativa. Não poderia ser diferente. Desde a série de escândalos desencadeada pelas fraudes contábeis que abalaram a economia americana no ano passado e reverteram o processo de duas décadas de glorificação dos executivos, um clamor moralizante atingiu os negócios. Nesse contexto, a ética — definida como transparência nas relações e preocupação com o impacto de suas atividades na sociedade — vem sendo vista como uma espécie de requisito para a sobrevivência das empresas: ninguém quer ter o destino de uma Enron ou de uma WorldCom, empurradas para a concordata, ou, o que é pior, de uma Arthur Andersen, varrida do mapa. Mais do que criar um fenômeno, no entanto, os escândalos aceleraram um processo que vinha se desenvolvendo nos últimos cinco a dez anos, como mostram os exemplos a seguir:

Criada em 1992, com cerca de 50 empresas, a organização americana Business for Social Responsibility (Negócios pela Responsabilidade Social) reúne hoje mais de 1 400 filiadas, que faturam em conjunto mais de 2 trilhões de dólares por ano. No Brasil, o Instituto Ethos tinha apenas 11 sócios ao ser fundado, em 1998. Esse número ultrapassou a casa dos 750, formado por empresas que respondem por 30% do PIB do país. A Ethics Officer Association (associação que busca orientar o trabalho dos diretores de ética nas empresas), fundada em 1992 com 12 membros, tem hoje mais de 890 sócios (cerca de 150 se filiaram depois dos escândalos, quando também a freqüência às reuniões aumentou 50%, segundo seu diretor, Ed Petry).

Em 2000, foi criada a Social Accountability International (SAI), para implementar o selo SA 8000, que certifica a conduta ética das empresas em relação aos trabalhadores e o respeito aos direitos humanos, nos moldes da ISO 9000 e da ISO 14000. Outra organização, a AccountAbility, com sede no Reino Unido, lançou há dois meses seu certificado de comportamento ético, o AA 1000 (a primeira empresa brasileira a credenciar-se foi a Souza Cruz, subsidiária da British American Tobacco, BAT).

Um estudo de 1999 envolvendo 124 empresas de 22 países, produzido pela Conference Board, uma organização não-lucrativa que promove estudos sobre gestão, concluiu que 78% dos conselhos de administração das companhias americanas estavam disseminando padrões éticos — em 1991 eram 41% e em 1987 apenas 21%.

Grandes consultorias de gestão, como a Arthur D. Little, já oferecem a seus clientes “planos de estratégia ética”. O escritório paulista Manhães Moreira Advogados Associados dá, desde 1998, consultoria também sobre “ética empresarial”. Hoje em dia, esse serviço é responsável por 10% das horas técnicas cobradas dos clientes. “Daqui a pouco já vai compensar ter gente só para isso”, diz o advogado Joaquim Manhães Moreira.

Esses exemplos são testemunho irrefutável de que o discurso ético se desenvolveu muito na última década. Isso é muito bom. Já a prática… Nos Estados Unidos, quase um em cada seis diretores financeiros afirma ter sido pressionado a falsificar números da empresa nos últimos cinco anos, segundo pesquisa publicada em agosto pela CFO Magazine, publicação dirigida a executivos financeiros. Quase um terço deles afirmou que sua empresa camuflava dívidas para causar boa impressão na bolsa de valores, geralmente com truques similares aos utilizados pela Enron. Outro estudo, feito em 1998 pelo Institute of Business Ethics, da Grã-Bretanha, com 178 empresas, concluiu que muitas companhias tinham códigos de ética para inglês ver: 30% não possuíam nenhum mecanismo que possibilitasse denúncias de atos antiéticos, 30% não davam cópia do código de conduta a todos os funcionários e só um terço divulgava seus códigos publicamente. Não há estudos desse tipo no Brasil, mas a observação permite supor que as empresas daqui têm comportamento similar.

Por que se percebe tanta diferença entre o discurso e a prática quando se trata de ética? Uma primeira explicação é que o discurso, por habitar o mundo das idéias, é mais fácil de mudar do que a prática, sujeita a atritos e obstáculos. Por essa óptica, as empresas estariam no caminho certo, com velocidades variáveis. Outra explicação, mais pessimista, é que o discurso está dissociado da prática. Nos últimos anos, esse discurso revestiu-se de uma argumentação que, grosso modo, diz o seguinte: se uma empresa for ética, seus funcionários ficarão contentes em dar seu sangue por ela, os fornecedores se transformarão em parceiros estratégicos, os consumidores darão preferência a seus produtos e serviços (e até aceitarão pagar mais caro por eles) e a comunidade que a abriga será mais compreensiva diante de eventuais deslizes. Numa palavra, o que a pregação ética promete às empresas é o paraíso — em versão adaptada ao ideal de negócios.

De fato, vários estudos sugerem que o compromisso ético traz resultados financeiros positivos. Para ficar apenas num exemplo: uma pesquisa com 300 empresas feita pela universidade católica DePaul, de Chicago, em 1999, concluiu que as que tinham compromisso ético proporcionavam aos acionistas um retorno duas vezes superior ao das demais. Detalhe: esse compromisso ético está geralmente vinculado a ações sociais que beneficiem os vários públicos afetados pela empre sa. Mas, como assinala o pesquisador Cláudio Pinheiro Machado Filho em sua tese de doutorado sobre responsabilidade social e criação de valor, pela Universidade de São Paulo, essa noção deve ser avaliada com muita cautela. Por dois motivos: primeiro, pela dificuldade metodológica para qualificar as ações de responsabilidade social. Segundo, porque é difícil estabelecer uma relação de causa e efeito entre postura ética e lucratividade. “Pode-se considerar que as empresas em condições de empreender atividades sociais são jus tamente as que já apresentam indicadores de desempenho mais robustos”, escreveu Machado Filho.

Esforço de propaganda

“A evolução do discurso é um problema”, diz a socióloga Rosa Maria Fischer, professora da Faculdade de Economia e Administração da USP. “Se, de um lado, propiciou que as empresas acordassem, de outro lado criou uma cortina de fumaça que dificulta enxergar a prática real da responsabilidade.” Segundo Cecília Arruda, coordenadora do Centro de Estudos de Ética nas Organizações, da Fundação Getulio Vargas de São Paulo, existe hoje um discurso que impinge a ética como mercadoria. “Ações de responsabilidade social vêm sendo usadas como esforço de propaganda, e as verbas normalmente saem do departamento de marketing”, diz Cecília. O problema não está, é claro, nas ações sociais — a não ser quando são feitas sem a explícita anuência dos acionistas (o que configura fazer o bem com o dinheiro alheio). O problema surge quando se confundem essas ações, geralmente externas e marginais ao negócio, com o que é o cerne da atitude ética: o modo de enfrentar os dilemas cotidianos.

Sentindo a crescente pressão da sociedade, a maioria das empresas quer hoje passar uma imagem de “boa cidadã corporativa”. Há uma maneira fácil e uma maneira difícil de fazer isso. Infelizmente, a correta não é a fácil. “Muita gente liga para cá e pergunta quanto custa um código de ética”, diz Cecília. “Como se fosse só pagar.” Em 2000, ela conduziu uma pesquisa sobre clima ético em 20 empresas — a nota média foi 5, numa escala de zero a 7. As principais falhas eram na comunicação interna, na existência de favoritismos e em exigir dos funcionários um comportamento correto quando a direção não dá o exemplo. Das 20 empresas, apenas três aceitaram repetir a pesquisa no ano passado. “Normalmente, as companhias pedem treinamento ético para a média gerência”, diz Cecília. “Quando nós começamos a falar, eles respondem: Mas isso não é para a gente, fala com o pessoal lá de cima.”

Conflitos éticos é o que não falta no mundo dos negócios. Os objetivos da empresa de maximizar seu lucro colidem com os objetivos dos funcionários de obter a maior remuneração possível (esse conflito ficou bastante claro nos Estados Unidos com as recentes denúncias de que, no ano passado, muitos CEOs recolheram remunerações exorbitantes — via bônus e stock options –, a despeito de prejuízos ou queda das ações das empresas que dirigiam). O desejo dos fabricantes de co brar margens confortáveis choca-se com o desejo dos consumidores de ter produtos bons e baratos. A vontade de um gerente de contratar um amigo ou conhecido opõe-se à necessidade da empresa de ter o melhor candidato possível e à exigência da sociedade de dar oportunidades iguais a todos.

Benefícios intangíveis, custos imediatos

Decisões éticas são, por princípio, dilemas. No mundo dos negócios, eles são complicados pelo fato de que os benefícios da conduta ética são em geral intangíveis, e os custos, imediatos. “Se o comportamento ético desse retorno financeiro, todos já o teriam adotado”, afirma Decio Zylbersztajn, chefe do programa de agribusiness da USP, que estuda as relações éticas no mercado. Não faltam contra-exemplos. Na entrada da sede da Globocabo, em São Paulo, havia um código de valores éticos preso na parede, com a assinatura de todos os funcionários. “Em termos de ética, eles são bem legais”, diz Cecília, da FGV. Mas a Globocabo, que hoje se chama NET, perdeu clientes e fechou 2002 com prejuízo de 1,12 bilhão de reais com as operações de TV por assinatura. Nos Estados Unidos, Dennis Bakke, CEO da companhia de energia AES, dava autonomia a seus empregados para tomar grandes decisões e não recebeu salário durante anos, apenas opções de ações. As ações caíram 90% sob o peso das dívidas da AES, e os investidores começaram a considerar seu estilo de gestão idealista demais. Bakke renunciou ao posto em setembro do ano passado.

Isso não quer dizer, como se acreditou durante muito tempo, que ética não combine com sucesso nos negócios, mas sim que ela impõe restrições. “A empresa só vai ter comportamento ético se o grupo controlador aceitar que seus valores, baseados em honestidade, verdade e justiça, podem levar a algumas perdas”, diz o advogado Manhães Moreira. A multinacional americana Cummins, fabricante de motores a diesel, deixou de vender suas peças diretamente ao varejo, na Colômbia, perdendo perto de 4 milhões de dólares de faturamento. “Estamos vendendo apenas por meio de nosso distribuidor, porque suspeitamos que o comércio estava sendo usado para lavagem de dinheiro do tráfico de drogas”, diz Ricardo Chuahy, presidente da Cummins para a América Latina e o Caribe.

Não se trata apenas de obedecer à lei, mas de respeitar os valores que a própria convicção dos fundadores impõe. A empresa paulista Argos, que integra cadeias de suprimentos para exportar peças de tecnologia, decidiu não realizar cotações para clientes que atuem na produção com fins militares. “No ano passado, uma empresa da Jordânia nos pediu um orçamento de peças que iriam para um jipe militar”, diz Leonardo Franco, um dos dois sócios da Argos. “Fizemos a cotação, não conseguimos o negócio e… ficamos aliviados.” A partir de então, a Argos passou a ignorar outras oportunidades parecidas. Franco não tem idéia de quanto sua empresa deixa de ganhar. “Por uma necessidade da empresa, poderíamos ficar tentados a aceitar”, diz Franco. “Prefiro nem saber.”

A CPFL, companhia de energia com sede em Campinas, enfrenta a crise da queda de consumo após o racionamento de 2001 e um reajuste de tarifas autorizado pelo governo abaixo do esperado. “Nesse momento, qual a tentação? Economizar dinheiro na manutenção e piorar o serviço”, diz Augusto Rodrigues, diretor de comunicação da CPFL. Desde 1997, quando a empresa foi privatizada e passou a ser controlada pelos grupos Votorantim, Bradesco e Camargo Correa, seu DEC (o número de horas por ano que o consumidor fica sem energia, em média) caiu de 9,7 para 5,4, o melhor índice do Brasil. Isso foi conseguido mediante a contratação e o treinamento de pessoal para atender emergências com a maior presteza possível. “A exigência do órgão regulador para a CPFL Paulista é de um DEC de 8,5”, diz Rodrigues. Ou seja, haveria espaço para economia. “Mas, até agora, conseguimos manter o número de eletricistas e caminhonetes de serviço.”

Os dilemas estão presentes em todo tipo de organização. No Brasil, pequenas empresas são tentadas a burlar a enorme carga de impostos a que estão submetidas. Pagar impostos, o básico dos básicos no comportamento ético, torna-se às vezes uma considerável desvantagem competitiva por causa do am biente de sonegação. Grandes corporações enfrentam outros tipos de dilema. “Na década de 80, a Shell não aderiu ao boicote contra o apartheid, na África do Sul”, diz o consultor americano Peter Schwartz, antigo responsável pelo departamento de planejamento de cenários da multinacional anglo-holandesa, que esteve no Brasil no ano passado. “Em nossa opinião, era mais ético ficar e confrontar o regime do que sair do país, mas a maioria das pessoas não concordava com essa filosofia.” Em 1986, a Shell acabou com a segregação racial em suas minas e em seus alojamentos — o que era contra a lei. O então presidente sul-africano, Pik Botha, ameaçou prender o diretor local da Shell. “Eu escrevi a carta que o então presidente da Shell, Lodewijk van Wachem, dirigiu ao presidente Botha, dizendo: Se você fizer isso, vamos fechar seu país. Não vamos aceitar essas leis imorais, lutaremos contra você. E nós podemos vencer.”

Alguns anos depois, a Shell esteve envolvida em outra polêmica num país africano. A companhia era acusada de apoiar a ditadura militar na Nigéria, e sofreu pesadas críticas em 1995, quando o escritor oposicionista Ken Saro-Wiwa e oito partidários, que lutavam contra a presença da multinacional no país, foram condenados à morte e executados. Paradoxalmente, o envolvimento da Shell na Nigéria obedecia à sua concepção de ética. Segundo Schwartz, a primeira Declaração de Princípios Gerais de Negócios estabeleceu a não-interferência em assuntos políticos dos países em que atuava. Como pano de fundo, havia a preocupação da companhia com as críticas contra as multinacionais que sustentavam e derrubavam governos na América Central. “A Shell achava que seu código era um modelo de comportamento ético, apenas para descobrir, do jeito mais duro possível, que as exigências da sociedade tinham mudado”, diz Schwartz. A Shell acabou, então, refazendo seu código e, em 1998, cancelou 69 contratos com empresas que não aderiram às suas políticas éticas, ambientais, de saúde e segurança. Mas continua na Nigéria, embora longe da região onde ocorreram os protestos de 1995.

Outro dilema: Bill Ford, bisneto de Henry Ford e atual CEO e chairman da Ford Motor Company, é um ambientalista de carteirinha. Como poderá manter-se fiel a suas idéias e, ao mesmo tempo, garantir a remuneração dos acionistas? Para Schwartz, Bill Ford não consegue. “Como sua empresa tem lucro? Vendendo o automóvel mais poluidor, o utilitário Explorer”, diz. “É a maior fonte de lucro da empresa. O que ele deve fazer? Destruir a companhia, mudar o produto, mudar a ética?”

Não existem santos

Um dos mais famosos casos de responsabilidade social — uma espécie de benchmark quando se fala de postura ética — foi protagonizado pela Johnson & Johnson em 1982. Na época, seu principal produto era o Tylenol, líder de vendas com 37% do mercado de analgésicos nos Estados Unidos. Os desafios éticos começaram quando seis pessoas apareceram mortas após ingestão dos comprimidos na região de Chicago. A empresa paralisou imediatamente a produção e a divulgação do Tylenol, ao mesmo tempo que fez um recall no país inteiro, retirando 31 milhões de frascos das prateleiras, ao custo de 100 milhões de dólares. As investigações concluíram que o envenenamento tinha sido obra de alguém que injetara cianeto nos remédios e os colocara de volta nas prateleiras das farmácias. Em poucas semanas, o Tylenol voltou ao mercado, e um ano depois recuperou a liderança, mas com 24% das vendas. Diretores da J&J revelaram depois que a decisão do recall foi tomada com base em seu código de ética, conhecido internamente como “Nosso Credo”. Mas, como para provar que não existem empresas santificadas, em 1995 a J&J deu sua pisada de bola, numa proporção que Enron nenhuma botaria defeito: a empresa simplesmente triturou pilhas de documentos relacionados a uma investigação federal que apurava se a companhia estava promovendo ilegalmente o remédio Retin-A, indicado no tratamento de acne, para que fosse usado como removedor de rugas.

A ética costuma lidar com questões difíceis. Por exemplo, a indústria de tabaco. Os ativistas antitabagismo do mundo inteiro não perdoam as grandes empresas do ramo por terem negado, até um passado recentíssimo (1998), as evidências dos malefícios do cigarro que há mais de 40 anos já eram reconhecidos pela comunidade científica. “Nossa postura, hoje, é reconhecer que o cigarro traz riscos de saúde sérios para determinados indivíduos em relação a determinadas doenças”, diz José Roberto Cosmo, gerente de responsabilidade social corporativa da Souza Cruz, no Rio de Janeiro. Tendo de lidar com uma legislação cada vez mais dura em relação a seu produto, a Souza Cruz optou por cumprir rigorosamente as exigências. “Temos o programa Cuidar, que já educou 90 000 alunos do ensino fundamental e médio sobre comportamentos de risco, e temos uma parceria com a Fundação Getulio Vargas para sensibilizar os varejistas a não vender produtos de risco a menores de 18 anos”, diz Cosmo.

Embora tenhamos a tentação de associar ética a convicções perenes, o fato é que os valores da sociedade mudam. Já foi considerado ético ter escravos. Já foi considerado ético revistar funcionárias na saída do trabalho para verificar se roubavam peças. “Na década de 70, havia empresas em São Bernardo que mantinham funcionários indisciplinados em cárcere privado”, diz Rosa, da USP. “Na década de 80, se você achasse uma mosca morta em seu iogurte, simplesmente jogava o produto fora. O lado bom do discurso ético é a apropriação da exigência de transparência e correção.” Outra vantagem é apontada por John Mein, diretor executivo do Instituto Ethos: “Às vezes, as empresas se comportam de certo modo por motivos mercadológicos. Mas, como ela é uma comunidade de pessoas, os valores podem se internalizar e mobilizar na direção da ética”.

Desde o ano passado, por exemplo, alguns valores mudaram na subsidiária brasileira da FMC, fabricante de defensivos agrícolas, de Campinas. “Estamos parando a chamada venda falsa, na qual o vendedor empurra para o cliente, no começo do ano, um produto que será usado somente em outubro”, diz Antonio Carlos Zem, presidente da FMC para a América do Sul. Esse tipo de operação é prejudicial por turbinar os relatórios de vendas. No caso de produtos químicos, também por aumentar o risco de manuseio — mas é prática razoavelmente comum no mercado. Outra prática eliminada pela FMC é conceder aval a agricultores para comprar fertilizantes. “Alguém inventou isso e nós seguimos”, afirma Zem. Funcionava assim: para cada dólar que o cliente comprasse de defensivo, a empresa avalizava 1 dólar de empréstimo para que adquirisse fertilizante. Ou seja: a FMC vendia, mas corria duplo risco. Podia não receber, e ainda ter de honrar o empréstimo do cliente. No mundo pós-Enron, a consultoria KPMG exigiu que essa operação constasse dos livros da corporação nos Estados Unidos. “Rapaz, ganhei uma visibilidade…”, diz Zem. “Eu tinha feito tudo com aprovação da chefia, mas pegou mal mesmo assim.” A FMC deve diminuir seu faturamento neste ano, dos 125 milhões de dólares de 2002 para algo entre 106 e 110 milhões, retirando de linha produtos que não dão margem satisfatória e diminuindo prazos de pagamento e estoques. É o custo de eliminar práticas duvidosas? “Podemos até perder algum espaço para os concorrentes”, diz Zem. “Mas é um espaço que não nos interessa muito, de clientes focados em manter estoque e rolar dívidas.”

Empresas responsáveis são as que aplicam a ética nos processos e nas decisões de negócios. Alguns exemplos: “A lei nos permite ter 5% de variação do princípio ativo no produto”, diz Zem. “Se você operar constantemente com 97%, está lesando o cliente. Se operar com 105%, está jogando dinheiro fora. Nós decidimos trabalhar com 102%.” A Método, empresa de engenharia com base em São Paulo, inclui uma dimensão ética na análise de contratação de pessoal. Eis uma das questões apresentadas no teste de contratação: “Seu pessoal está totalmente ocupado e, ao ganhar um novo contrato, você encontra dificuldade em montar uma equipe, mas tem informação de que há pessoas em outros núcleos com alguma ociosidade. O que você faria? E o que você acha que o chefe que tem ociosidade na equipe deveria fazer, já que ele conta com aquele pessoal para um contrato que deve ser fechado em breve?” Para a Método, não há respostas corretas nem erradas, o que é analisado é a forma como a questão é encaminhada, para ter certeza das preocupações éticas do candidato.

No laboratório farmacêutico Merck Sharp & Dohme, a ética está na lista de metas de cada executivo. “Meu bônus depende de cumprir objetivos em relação à ética”, diz Tadeu Alves, presidente da Merck no Brasil. Um dos compromissos de Alves é criar um centro para difusão de práticas de negócios responsáveis. A Merck é considerada uma empresa exemplar por não usar práticas comuns na indústria, de “sedução” dos médicos com presentes e viagens luxuosas para que indiquem seus remédios. (O laboratório os convida para congressos, mas a viagem é de classe econômica e sem acompanhante.) É também famosa por ter desenvolvido, em 1987, um remédio contra a oncocercose, chamada “cegueira dos rios”, que distribui gratuitamente no mundo inteiro. “Usamos isso como propaganda”, diz Alves. “A comunidade médica é sensível a essas iniciativas.” (Mesmo esse alto padrão ético não impediu que a Merck sofresse críticas pela “contabilidade criativa” de uma de suas controladas nos Estados Unidos no ano passado).

Na CPFL, o senso ético foi despertado no fim de 1999, quando eletricistas da empresa podaram árvores da avenida Orozimbo Maia, em Campinas, provocando protestos enérgicos dos moradores. “A poda buliu com a marca da empresa, com 90 anos de história”, diz Augusto Rodrigues, diretor de comunicação da CPFL. “Descobrimos que nossos processos estavam inadequados e percebemos que tínhamos de treinar eletricistas e gerentes para entender o impacto de suas ações na comunidade.” Na FMC, empresa na qual seus vendedores — por dever de ofício — trabalham à distância do escritório central, isso é feito com discussões sobre o assunto em todos os encontros. “Minha técnica é o management-encheção-de-saco”, diz Zem. “Estou sempre batendo na mesma tecla, alertando para a preservação da empresa, trazendo gente para orientar.”

Compensa? Afinal, ética traz resultados? Alguns, sim. Em geral, diferentes para cada empresa. Quando a Bahia Sul Celulose foi fundada, em 1992, criou um impacto no município de Mucuri, cuja economia girava em torno da pesca. “Com a chegada de gente de fora, aumentaram as exigências por melhores serviços, fazendo subir os preços na cidade”, diz Murilo Passos, presidente da Companhia Suzano, controladora da Bahia Sul. As ações sociais não só melhoraram o índice de satisfação da comunidade com a empresa (sim, a Bahia Sul mede isso, e o índice pulou de 56% em 1998 para 75% em 2001) como também permitiram promover mais contratações locais, reduzindo a rotatividade de trabalhadores (de 13% em 1993 para 7% em 1994, até chegar a algo em torno de 3% hoje em dia). Ou seja, menos custo.

No Unibanco, que instalou um comitê de ética no ano passado, o resultado é a proteção da imagem. No ramo financeiro, nenhum cuidado é considerado exagero. “A instalação da minha área teve um custo muito alto”, diz Márcia Klinke, diretora adjunta de Legal Compliance do Unibanco, que lida com risco reputacional. Mas vale a pena? “Lógico que vale. Estamos protegendo um bem caríssimo à empresa, que é a sua imagem. Estamos no mercado há 80 anos, e queremos permanecer”, afirma Márcia. Na empresa de engenharia Método, o código de ética foi estendido a toda a cadeia de valor. O documento foi negociado e assinado por todos os fornecedores. “A expectativa é que a gente comece a trabalhar sob a óptica da confiança”, diz Hugo Marques da Rosa, presidente da Método. “Isso elimina muitos custos, porque os sistemas de controle são caros.”

Em termos macroeconômicos, essa talvez seja a grande vantagem do comportamento ético. Como explicou o economista Ronald Coase, prêmio Nobel de 1991, o funcionamento dos mercados envolve custos de transação. Quando os agentes vivem num ambiente ético, a transparência diminui a ineficiência da falta de informações, e a confiança diminui os custos de controle.

Se dá resultado, então por que não são todos éticos, o tempo todo? Uma possível explicação é dada pela Teoria dos Jogos […]: a melhor situação para a coletividade é que todos os jogadores sejam éticos, mas o maior lucro individual é obtido quando os outros crêem que somos responsáveis, ao mesmo tempo que agimos com oportunismo. Esse modelo matemático se reflete na realidade? Em termos. Há variáveis como a apontada por Mein, do Instituto Ethos: o comportamento ético contamina. Também há variáveis não passíveis de medição, citadas por vários empresários entrevistados, como o orgulho de andar de cabeça erguida. A resposta mais honesta que se pode dar é: em alguns casos, ser ético traz compensação financeira, em outros casos não. Mas você não tem como saber antes de tentar.

Você passaria no Teste da Honestidade?

Por Barbara Axt e Renata Klar – Publicado originalmente na revista Seleções de agosto/2005

Perguntamos aos brasileiros como eles reagiriam a várias situações do dia-a-dia. As respostas foram fascinantes – e reveladoras.

No último dia de férias no Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, você faz as malas. As belas e felpudas toalhas do hotel, ainda limpas, estão penduradas ali perto.
1. Você pega uma e guarda na mala?
2. Você paga por apenas um ponto de conexão da sua TV por assinatura, mas descobre como conectar rapidamente as outras TVs da casa.
3.
Ao deixar o supermercado, você percebe que a caixa lhe deu troco a mais. Você vai embora ou volta e devolve o dinheiro?

Pesquisa encomendada ao Instituto Gerp
Mais cedo ou mais tarde, todos deparamos com situações como estas. Você faria o que é certo? Por quê? Para descobrir, Seleções encomendou uma pesquisa ao Instituto Gerp, realizada em dez capitais brasileiras: São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, Porto Alegre, Curitiba, Recife e Belém. Em cada uma, 140 pessoas, com pelo menos 18 anos, foram confrontadas com 12 situações do dia-a-dia, para testar sua noção de certo e errado.

Os resultados não são um barômetro científico da virtude dos brasileiros, mas sim um instigante exercício de auto-avaliação – talvez um teste para a capacidade de responder a perguntas com honestidade. No geral, nós brasileiros não nos saímos mal.

Toalhas do hotel: Apenas 13% dos entrevistados, por exemplo, disseram que pegariam uma toalha do hotel. E por que não pegariam? Adriano Cunha, 24 anos, advogado de Recife, disse: “Não levaria porque as toalhas não são minhas.” Liliane Nogueira Paulo, de Curitiba, explicou: “Levar a toalha daria prejuízo para o hotel, o que provavelmente encareceria o preço da hospedagem.”

Já Rutilene do Socorro Silva, estudante de enfermagem em Belém, não teve dúvidas na hora de responder: “Levaria sim, com certeza! Elas são tão lindas! Vejo nas novelas aquelas toalhas maravilhosas. Eu ia querer levar uma de lembrança. E uma só não ia fazer falta, não é?” Em hotéis é fácil guardar as toalhas na bolsa sem maiores consequências. Em motéis, entretanto, os quartos são revistados antes que o cliente seja liberado. Mas parece que nem todos se lembram disso.

“Um amigo foi ao motel com a mulher, que guardou duas toalhas na bolsa. Na hora de pagar a conta, as peças foram cobradas. Meu amigo ficou com tanta vergonha que fingiu que mal conhecia a própria mulher, dizendo ‘A gente conhece cada pessoa por aí, não é mesmo?’”, conta uma dentista de Porto Alegre.

“Gato” da TV por assinatura: O fato de estar fazendo algo errado não parece incomodar os 41% dos moradores de São Paulo que declararam que fariam um “gato” da TV por assinatura. Não muito diferente dos 36% de potenciais “gatos” de Belo Horizonte – que estão um pouco acima da média brasileira de 31%.

Diego Fonseca, de Belo Horizonte, é um dos que não teriam pudor em fazer um “gato” em casa. “Não tenho TV a cabo, mas os meus amigos que têm fazem ‘gato’. Nenhum deles teve problema por isso”, justifica.

Na hora de fazer a coisa certa, a diferença entre homens e mulheres é, na média nacional, estatisticamente irrelevante: entre os brasileiros que declararam que fariam um “gato” da TV por assinatura, 52% são homens e 48%, mulheres. A diferença entre o comportamento dos sexos foi maior em Porto Alegre – 43% dos homens fariam um gato contra apenas 26% das mulheres –, mas no Rio, o porcentual de homens e mulheres que fariam um gato foi o mesmo: 23%.

Honestidade coisa de jovens ou velhos? Encontramos pelo país jovens (de 18 a 35 anos) que não acreditam ser menos honestos do que os mais velhos. Diego Barbosa, promotor de vendas em Curitiba, tem 19 anos e afirma que esta não é uma questão ligada à idade:

“Honestidade depende da criação da pessoa. Tem jovem que faz tudo direitinho, e gente mais velha que é bem malandra”, explica. No entanto, em Recife, 25% dos jovens levariam canetas e envelopes do trabalho para usar em casa, enquanto apenas 6% daqueles de mais de 45 anos o fariam.

Material de escritório: Ainda em relação ao material de escritório, quem se saiu pior foi São Paulo: 27% confessaram que levariam artigos para casa – contra 4% em Belo Horizonte e 17% da média nacional. Outro ponto perdido pelos paulistanos: parar o carro em espaços reservados para deficientes. Dos entrevistados, 31% admitiram que fariam isso, caso fossem comprar apenas um artigo no supermercado e o estacionamento estivesse lotado. Isso contrasta com os 23% de todos os brasileiros e com apenas 14% das pessoas do Rio de Janeiro.

Vagas reservadas para deficientes: Lilian Mendonça estuda jornalismo em Brasília e, mesmo numa situação extrema, não estaciona em vagas para deficientes. “Se existem essas vagas, temos de respeitar.” No entanto, admite que muitos não agem assim: “Já vi gente que não é deficiente parar nessas vagas”, diz ela. “Mas nunca falei nada. Não adianta, vai entrar por um ouvido e sair pelo outro.”

Respeitar ou furar fila
Digamos que você esteja numa longa fila à espera do ônibus. Chove muito e, quando o ônibus chega, você percebe que não vai conseguir entrar – a menos que fure a fila. O que você faz? Em Recife, 40% dos moradores disseram que furariam a fila, contra apenas 6% dos moradores de Salvador e 17% da média nacional.

Uma das entrevistadas de Recife, Maria de Lourdes, 25 anos, admitiu que furaria a fila porque “é horrível ficar molhada em um dia chuvoso”.

Em Belém, 32% afirmaram que furariam a fila. O que o técnico de informática Anderson Neves, de Belo Horizonte, não faria. “Mesmo que meu ônibus tivesse fila, eu não passaria a frente. É falta de respeito.”

Tem gente que procura justificativas: “Se tiver um monte de crianças fazendo bagunça, saindo da escola e atrapalhando a entrada do ônibus, aí furo a fila”, afirma o motoqueiro José Alves, 29 anos, de Curitiba.

Sonegação de impostos
Perguntamos aos entrevistados se esconderiam parte do seu rendimento para sonegar imposto de renda. A média nacional de respostas positivas foi de 29%. Em Curitiba, porém, 39% sonegariam.

No Rio de Janeiro, um funcionário da UFRJ de 45 anos explica as razões que teria para sonegar o imposto: “Sou funcionário público e a tributação sobre o meu salário é muito alta. Mas a principal razão é que a gente não vê o retorno desse dinheiro em serviços públicos. Se as pessoas vissem o imposto de renda sendo investido, pagariam com satisfação.”

Ele não é o único que pensa assim: no Brasil, a sonegação de impostos é vista como reação à atitude dos políticos. “Apesar de nunca ter pensado em sonegar impostos, considero o imposto de renda muito injusto. O dinheiro é meu, fui eu que trabalhei. Se, mesmo com as disparidades, o dinheiro fosse utilizado para a educação e a saúde pública, eu até pagaria sem reclamar, mas na verdade vai tudo para o bolso dos políticos”, revolta-se Simone, 39 anos, psicóloga do Rio de Janeiro.

Limite de velocidade no trânsito
Perguntados se dirigiriam a uma velocidade 20 km/h acima do limite, às 21 horas, numa via expressa quase vazia, 63% dos moradores de Recife admitiram que sim – comparados à média nacional de 51%. O estudante de engenharia Djan Bernardo, de Recife, justifica sua resposta: “Ultrapasso o limite por segurança. É melhor correr o risco por uma falha minha do que ser assaltado. Ficar parado na rua à noite pode ser perigoso.”

E quanto a beber e dirigir? Suponha que você tenha bebido demais em uma festa, e suspeite estar acima do teor de álcool permitido pela lei. Ainda assim, você volta para casa dirigindo?

Rio de Janeiro e São Paulo, com respectivamente 14% e 13%, ficaram em posição bem parecida com a média nacional – 16% de respostas positivas –, contrastando com os 26% de Fortaleza.

Raquel Brasileira (o nome dela é este mesmo!), 26 anos, é de Fortaleza, mas tem uma solução segura para o impasse. “Não gosto de pegar o carro depois de beber. Costumo levar comigo uma pessoa que não bebe, que volta dirigindo.”

Devolução de troco: Situação clássica: no supermercado, você percebe que a caixa lhe deu troco a mais. Você devolve? Três quartos dos brasileiros responderam que sim, e os moradores do Rio de Janeiro e de Salvador alcançaram marca ainda mais expressiva: 93%. Uma analista de sistemas do Rio de Janeiro de 35 anos pensa no funcionário que errou na conta. “Devolvo o troco a mais porque sei que é o atendente que vai ter de repor o dinheiro.” Esse também é o argumento da estudante Fabiane Lopes, de Brasília. “Isso aconteceu comigo uma vez. Voltei e devolvi para a caixa do supermercado porque no fim do dia o dinheiro ia estar faltando e isso a prejudicaria no emprego.”

Isso é algo que nunca tinha passado pela cabeça de Isabela do Nascimento, advogada de Fortaleza que já ficou uma vez com o troco a mais. “Acho errado ficar com o dinheiro, mas uma vez já fiquei”, confessa. “Existe uma grande diferença entre o que a gente diz e o que faz na hora. Foi bom responder a essas perguntas, porque tive a chance de parar para pensar no assunto.”

Eda Zanatta, 35 anos, é uma dentista de Porto Alegre que usa uma situação semelhante para ilustrar sua opinião sobre honestidade. “Estava no caixa de uma loja de roupas e a vendedora retirava as etiquetas de proteção que apitam quando você passa pela porta. Ela tirou a etiqueta de uma jaqueta, mas esqueceu de registrar o valor. Avisei à vendedora e, na mesma hora, senti um chute na perna. Era o meu marido me repreendendo por ter avisado – e por ter deixado de levar uma roupa de graça. Hoje ele é meu ex-marido. Isso prova que honestidade é algo que faz parte de cada pessoa.”

Software pirata: Certas atitudes, como a utilização de um software pirata, são motivadas pela praticidade. “Nunca comprei programas de computador. É muito fácil conseguir uma cópia de software com um amigo”, explica Rafael Marques Risso, 24 anos, estudante de direito de Recife. “Mas sei que não é certo.” É mais ou menos a visão de 39% dos entrevistados em Curitiba, embora apenas 6% admitam que utilizariam programas piratas em Belo Horizonte e 22% no Brasil como um todo. Em Porto Alegre, com 32% de respostas positivas, um prestador de serviços de manutenção predial explica: “Se o meu computador apresenta um problema, quero que o técnico resolva rápido. Não pergunto se ele utiliza um software pirata. Mas se eu for comprar um programa, invisto num original. Acontece que alguns softwares são caros demais e as pessoas não podem pagar por eles. Meu irmão, engenheiro, precisou se juntar com quatro amigos para dividir o valor de um programa original.”

Carteira encontrada na rua: Se você encontrasse na rua uma carteira com R$ 100, sem identificação, entregaria à polícia? Vinte e quatro por cento dos brasileiros responderam que sim, mas com variações: de 56% dos entrevistados em Brasília, a apenas 11% em Salvador. As pessoas que não entregariam alegam falta de confiança. “Se a carteira tiver os documentos, procuro a pessoa que perdeu. Não entrego na delegacia porque é capaz de os policiais ficarem com o dinheiro…” Paulo Campelo, 48 anos, é motorista de táxi em Salvador, e por isso já está acostumado a devolver desde carteiras até máquinas digitais e computadores portáteis esquecidos em seu carro. “Uma vez presenciei um assalto e fui atrás do assaltante. Quando o pegaram, ele jogou a bolsa roubada dentro do meu carro. Procurei documentos, mas não tinha nada além de papéis e R$ 365. Na época, meu aluguel custava R$ 250 por mês. Rodei um pouco para tentar encontrar a senhora que tinha sido assaltada, mas, como não a achei, fiquei com os R$ 365. É mais justo do que entregar para um policial e ele ficar com o dinheiro.” Já o guardador de carros José Carlos Freitas, 40 anos, de Porto Alegre, explica por que entregaria a carteira na delegacia: “Faço a minha parte. Fica a critério dos policiais devolver o dinheiro ou não. Cada um segue sua própria consciência.”

Delação: Pode não existir resposta certa ou errada, mas a pergunta que causou mais angústia foi se o entrevistado contaria a uma amiga ou amigo ter visto seu marido/sua mulher de mãos dadas com um(a) estranho(a). Em Fortaleza e Belo Horizonte, 46% disseram que sim, ao passo que em São Paulo apenas 16% contariam. No Brasil todo, 27% abririam os olhos do amigo (a). Raquel Rosário da Silva é de Belém e faz parte da maioria que não se mete no casamento dos outros. “Se eu contasse uma coisa dessas, poderiam dizer que era intriga minha ou que eu estava interessada naquela pessoa. Se a situação fosse o oposto e alguém viesse falar algo assim do meu namorado, eu também ia desconfiar. Só acredito vendo.” Paulo Cézar Souza, de Curitiba, tem 22 anos e afirma que não deixaria de alertar o amigo mesmo correndo o risco de ser acusado de mentiroso: “Se ele não acreditar em mim, digo pelo menos para ficar de olho na mulher.” Foram poucas as questões que tiveram respostas tão divididas conforme a idade do entrevistado. Enquanto 36% dos jovens brasileiros contariam ao amigo, apenas 15% daqueles com mais de 45 anos interviriam. O brasileiro vê a honestidade como algo que se aprende em casa, com a família. “Tento dar um bom exemplo para os meus filhos porque acho que ser uma pessoa correta é algo que vem de berço”, explica Luiz, 50 anos, comerciante de Porto Alegre.

A doméstica Vera Moraes, 48 anos, de Curitiba, complementa: “No trabalho, se você for desonesto, alguém acaba desconfiando e você é demitido. No meu caso, para que eu possa trabalhar, é preciso que o patrão tenha confiança. Ser honesto é uma questão de sobrevivência.”

Tu acreditas em Papai Noel e Coelho da Páscoa?

Foto de PM do Paraná “machucado” que viralizou tinha sangue falso

Após centenas de internautas suspeitarem da veracidade da imagem, Polícia Militar do Paraná admitiu que ‘sangue’ em foto viral de PM em protesto é tinta. O policial, que publicou a foto desonesta com a legenda “Professor, conta outra…”, se chama Umberto Scandelari

pm ferido paraná farsa imagem
Tentando se passar por vítima dos professores que participaram de manifestações no Paraná, PM publicou uma foto em que aparentava estar ferido, mas a farsa não durou muito tempo e ele apagou a imagem (Reprodução)

A Policia Militar do Paraná confirmou a suspeita de que as manchas vermelhas aparentes no rosto, mãos e braços do PM Umberto Scandelari eram tinta e não sangue, como ele quis aparentar em foto publicada no Facebook logo após o protesto de professores no Paraná. A imagem viralizou e foi compartilhada mais de 5 mil vezes em menos de 24 horas.

O produto utilizado por Umberto para simular o sangue é um componente de bombas usadas para munições menos letais, como forma de marcar pessoas que estão envolvidas em manifestações.

Imediatamente após divulgar a imagem, amigos de Scandelari questionaram como estava o seu estado de saúde e desejaram melhoras. “Mano, você tá bem?”, “Melhoras, parceiro”, “Melhoras e se cuida”.

O PM tentou se passar por vítima. “Sim, td bem, mas se os caras não invadissem nada disso teria acontecido”.

Com a declaração da Polícia Militar do estado revelando que tudo se tratava de uma farsa, o PM foi criticado e virou motivo de chacota no Facebook. A maioria dos internautas usavam piadas como “Sangrou groselha”, “Quero a marca desse batom”, “Derrubou ki-suco de morango”, “Estourou a caneta de correção dos profs nele” e “Professor malvado de artes, tadinho”.

“Nenhum maquiador mais preparado para dar um toque mais realista a essa tinta rosa barata?”, questionou outro internauta. “Engraçado, a farda está intacta”, alertou uma usuária. Os comentários não pararam por aí: “Quero a marca desse batom”, “Derrubou ki-suco de morango”.

Ao contrário de Scandelari, centenas de professores e servidores se feriram de verdade em decorrência da violência policial nesta 29 de abril. As imagens dos feridos de verdade podem ser relembradas aqui.

Fonte: Pragmatismo Político