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Os dilemas da ética

Por David Cohen, Revista Exame.
Fonte:
http://exame.abril.com.br/revista-exame/edicoes/792/noticias/os-dilemas-da-etica-m0052144

Poucos assuntos têm sido tão discutidos nas empresas do mundo inteiro quanto a ética corporativa. Não poderia ser diferente. Desde a série de escândalos desencadeada pelas fraudes contábeis que abalaram a economia americana no ano passado e reverteram o processo de duas décadas de glorificação dos executivos, um clamor moralizante atingiu os negócios. Nesse contexto, a ética — definida como transparência nas relações e preocupação com o impacto de suas atividades na sociedade — vem sendo vista como uma espécie de requisito para a sobrevivência das empresas: ninguém quer ter o destino de uma Enron ou de uma WorldCom, empurradas para a concordata, ou, o que é pior, de uma Arthur Andersen, varrida do mapa. Mais do que criar um fenômeno, no entanto, os escândalos aceleraram um processo que vinha se desenvolvendo nos últimos cinco a dez anos, como mostram os exemplos a seguir:

Criada em 1992, com cerca de 50 empresas, a organização americana Business for Social Responsibility (Negócios pela Responsabilidade Social) reúne hoje mais de 1 400 filiadas, que faturam em conjunto mais de 2 trilhões de dólares por ano. No Brasil, o Instituto Ethos tinha apenas 11 sócios ao ser fundado, em 1998. Esse número ultrapassou a casa dos 750, formado por empresas que respondem por 30% do PIB do país. A Ethics Officer Association (associação que busca orientar o trabalho dos diretores de ética nas empresas), fundada em 1992 com 12 membros, tem hoje mais de 890 sócios (cerca de 150 se filiaram depois dos escândalos, quando também a freqüência às reuniões aumentou 50%, segundo seu diretor, Ed Petry).

Em 2000, foi criada a Social Accountability International (SAI), para implementar o selo SA 8000, que certifica a conduta ética das empresas em relação aos trabalhadores e o respeito aos direitos humanos, nos moldes da ISO 9000 e da ISO 14000. Outra organização, a AccountAbility, com sede no Reino Unido, lançou há dois meses seu certificado de comportamento ético, o AA 1000 (a primeira empresa brasileira a credenciar-se foi a Souza Cruz, subsidiária da British American Tobacco, BAT).

Um estudo de 1999 envolvendo 124 empresas de 22 países, produzido pela Conference Board, uma organização não-lucrativa que promove estudos sobre gestão, concluiu que 78% dos conselhos de administração das companhias americanas estavam disseminando padrões éticos — em 1991 eram 41% e em 1987 apenas 21%.

Grandes consultorias de gestão, como a Arthur D. Little, já oferecem a seus clientes “planos de estratégia ética”. O escritório paulista Manhães Moreira Advogados Associados dá, desde 1998, consultoria também sobre “ética empresarial”. Hoje em dia, esse serviço é responsável por 10% das horas técnicas cobradas dos clientes. “Daqui a pouco já vai compensar ter gente só para isso”, diz o advogado Joaquim Manhães Moreira.

Esses exemplos são testemunho irrefutável de que o discurso ético se desenvolveu muito na última década. Isso é muito bom. Já a prática… Nos Estados Unidos, quase um em cada seis diretores financeiros afirma ter sido pressionado a falsificar números da empresa nos últimos cinco anos, segundo pesquisa publicada em agosto pela CFO Magazine, publicação dirigida a executivos financeiros. Quase um terço deles afirmou que sua empresa camuflava dívidas para causar boa impressão na bolsa de valores, geralmente com truques similares aos utilizados pela Enron. Outro estudo, feito em 1998 pelo Institute of Business Ethics, da Grã-Bretanha, com 178 empresas, concluiu que muitas companhias tinham códigos de ética para inglês ver: 30% não possuíam nenhum mecanismo que possibilitasse denúncias de atos antiéticos, 30% não davam cópia do código de conduta a todos os funcionários e só um terço divulgava seus códigos publicamente. Não há estudos desse tipo no Brasil, mas a observação permite supor que as empresas daqui têm comportamento similar.

Por que se percebe tanta diferença entre o discurso e a prática quando se trata de ética? Uma primeira explicação é que o discurso, por habitar o mundo das idéias, é mais fácil de mudar do que a prática, sujeita a atritos e obstáculos. Por essa óptica, as empresas estariam no caminho certo, com velocidades variáveis. Outra explicação, mais pessimista, é que o discurso está dissociado da prática. Nos últimos anos, esse discurso revestiu-se de uma argumentação que, grosso modo, diz o seguinte: se uma empresa for ética, seus funcionários ficarão contentes em dar seu sangue por ela, os fornecedores se transformarão em parceiros estratégicos, os consumidores darão preferência a seus produtos e serviços (e até aceitarão pagar mais caro por eles) e a comunidade que a abriga será mais compreensiva diante de eventuais deslizes. Numa palavra, o que a pregação ética promete às empresas é o paraíso — em versão adaptada ao ideal de negócios.

De fato, vários estudos sugerem que o compromisso ético traz resultados financeiros positivos. Para ficar apenas num exemplo: uma pesquisa com 300 empresas feita pela universidade católica DePaul, de Chicago, em 1999, concluiu que as que tinham compromisso ético proporcionavam aos acionistas um retorno duas vezes superior ao das demais. Detalhe: esse compromisso ético está geralmente vinculado a ações sociais que beneficiem os vários públicos afetados pela empre sa. Mas, como assinala o pesquisador Cláudio Pinheiro Machado Filho em sua tese de doutorado sobre responsabilidade social e criação de valor, pela Universidade de São Paulo, essa noção deve ser avaliada com muita cautela. Por dois motivos: primeiro, pela dificuldade metodológica para qualificar as ações de responsabilidade social. Segundo, porque é difícil estabelecer uma relação de causa e efeito entre postura ética e lucratividade. “Pode-se considerar que as empresas em condições de empreender atividades sociais são jus tamente as que já apresentam indicadores de desempenho mais robustos”, escreveu Machado Filho.

Esforço de propaganda

“A evolução do discurso é um problema”, diz a socióloga Rosa Maria Fischer, professora da Faculdade de Economia e Administração da USP. “Se, de um lado, propiciou que as empresas acordassem, de outro lado criou uma cortina de fumaça que dificulta enxergar a prática real da responsabilidade.” Segundo Cecília Arruda, coordenadora do Centro de Estudos de Ética nas Organizações, da Fundação Getulio Vargas de São Paulo, existe hoje um discurso que impinge a ética como mercadoria. “Ações de responsabilidade social vêm sendo usadas como esforço de propaganda, e as verbas normalmente saem do departamento de marketing”, diz Cecília. O problema não está, é claro, nas ações sociais — a não ser quando são feitas sem a explícita anuência dos acionistas (o que configura fazer o bem com o dinheiro alheio). O problema surge quando se confundem essas ações, geralmente externas e marginais ao negócio, com o que é o cerne da atitude ética: o modo de enfrentar os dilemas cotidianos.

Sentindo a crescente pressão da sociedade, a maioria das empresas quer hoje passar uma imagem de “boa cidadã corporativa”. Há uma maneira fácil e uma maneira difícil de fazer isso. Infelizmente, a correta não é a fácil. “Muita gente liga para cá e pergunta quanto custa um código de ética”, diz Cecília. “Como se fosse só pagar.” Em 2000, ela conduziu uma pesquisa sobre clima ético em 20 empresas — a nota média foi 5, numa escala de zero a 7. As principais falhas eram na comunicação interna, na existência de favoritismos e em exigir dos funcionários um comportamento correto quando a direção não dá o exemplo. Das 20 empresas, apenas três aceitaram repetir a pesquisa no ano passado. “Normalmente, as companhias pedem treinamento ético para a média gerência”, diz Cecília. “Quando nós começamos a falar, eles respondem: Mas isso não é para a gente, fala com o pessoal lá de cima.”

Conflitos éticos é o que não falta no mundo dos negócios. Os objetivos da empresa de maximizar seu lucro colidem com os objetivos dos funcionários de obter a maior remuneração possível (esse conflito ficou bastante claro nos Estados Unidos com as recentes denúncias de que, no ano passado, muitos CEOs recolheram remunerações exorbitantes — via bônus e stock options –, a despeito de prejuízos ou queda das ações das empresas que dirigiam). O desejo dos fabricantes de co brar margens confortáveis choca-se com o desejo dos consumidores de ter produtos bons e baratos. A vontade de um gerente de contratar um amigo ou conhecido opõe-se à necessidade da empresa de ter o melhor candidato possível e à exigência da sociedade de dar oportunidades iguais a todos.

Benefícios intangíveis, custos imediatos

Decisões éticas são, por princípio, dilemas. No mundo dos negócios, eles são complicados pelo fato de que os benefícios da conduta ética são em geral intangíveis, e os custos, imediatos. “Se o comportamento ético desse retorno financeiro, todos já o teriam adotado”, afirma Decio Zylbersztajn, chefe do programa de agribusiness da USP, que estuda as relações éticas no mercado. Não faltam contra-exemplos. Na entrada da sede da Globocabo, em São Paulo, havia um código de valores éticos preso na parede, com a assinatura de todos os funcionários. “Em termos de ética, eles são bem legais”, diz Cecília, da FGV. Mas a Globocabo, que hoje se chama NET, perdeu clientes e fechou 2002 com prejuízo de 1,12 bilhão de reais com as operações de TV por assinatura. Nos Estados Unidos, Dennis Bakke, CEO da companhia de energia AES, dava autonomia a seus empregados para tomar grandes decisões e não recebeu salário durante anos, apenas opções de ações. As ações caíram 90% sob o peso das dívidas da AES, e os investidores começaram a considerar seu estilo de gestão idealista demais. Bakke renunciou ao posto em setembro do ano passado.

Isso não quer dizer, como se acreditou durante muito tempo, que ética não combine com sucesso nos negócios, mas sim que ela impõe restrições. “A empresa só vai ter comportamento ético se o grupo controlador aceitar que seus valores, baseados em honestidade, verdade e justiça, podem levar a algumas perdas”, diz o advogado Manhães Moreira. A multinacional americana Cummins, fabricante de motores a diesel, deixou de vender suas peças diretamente ao varejo, na Colômbia, perdendo perto de 4 milhões de dólares de faturamento. “Estamos vendendo apenas por meio de nosso distribuidor, porque suspeitamos que o comércio estava sendo usado para lavagem de dinheiro do tráfico de drogas”, diz Ricardo Chuahy, presidente da Cummins para a América Latina e o Caribe.

Não se trata apenas de obedecer à lei, mas de respeitar os valores que a própria convicção dos fundadores impõe. A empresa paulista Argos, que integra cadeias de suprimentos para exportar peças de tecnologia, decidiu não realizar cotações para clientes que atuem na produção com fins militares. “No ano passado, uma empresa da Jordânia nos pediu um orçamento de peças que iriam para um jipe militar”, diz Leonardo Franco, um dos dois sócios da Argos. “Fizemos a cotação, não conseguimos o negócio e… ficamos aliviados.” A partir de então, a Argos passou a ignorar outras oportunidades parecidas. Franco não tem idéia de quanto sua empresa deixa de ganhar. “Por uma necessidade da empresa, poderíamos ficar tentados a aceitar”, diz Franco. “Prefiro nem saber.”

A CPFL, companhia de energia com sede em Campinas, enfrenta a crise da queda de consumo após o racionamento de 2001 e um reajuste de tarifas autorizado pelo governo abaixo do esperado. “Nesse momento, qual a tentação? Economizar dinheiro na manutenção e piorar o serviço”, diz Augusto Rodrigues, diretor de comunicação da CPFL. Desde 1997, quando a empresa foi privatizada e passou a ser controlada pelos grupos Votorantim, Bradesco e Camargo Correa, seu DEC (o número de horas por ano que o consumidor fica sem energia, em média) caiu de 9,7 para 5,4, o melhor índice do Brasil. Isso foi conseguido mediante a contratação e o treinamento de pessoal para atender emergências com a maior presteza possível. “A exigência do órgão regulador para a CPFL Paulista é de um DEC de 8,5”, diz Rodrigues. Ou seja, haveria espaço para economia. “Mas, até agora, conseguimos manter o número de eletricistas e caminhonetes de serviço.”

Os dilemas estão presentes em todo tipo de organização. No Brasil, pequenas empresas são tentadas a burlar a enorme carga de impostos a que estão submetidas. Pagar impostos, o básico dos básicos no comportamento ético, torna-se às vezes uma considerável desvantagem competitiva por causa do am biente de sonegação. Grandes corporações enfrentam outros tipos de dilema. “Na década de 80, a Shell não aderiu ao boicote contra o apartheid, na África do Sul”, diz o consultor americano Peter Schwartz, antigo responsável pelo departamento de planejamento de cenários da multinacional anglo-holandesa, que esteve no Brasil no ano passado. “Em nossa opinião, era mais ético ficar e confrontar o regime do que sair do país, mas a maioria das pessoas não concordava com essa filosofia.” Em 1986, a Shell acabou com a segregação racial em suas minas e em seus alojamentos — o que era contra a lei. O então presidente sul-africano, Pik Botha, ameaçou prender o diretor local da Shell. “Eu escrevi a carta que o então presidente da Shell, Lodewijk van Wachem, dirigiu ao presidente Botha, dizendo: Se você fizer isso, vamos fechar seu país. Não vamos aceitar essas leis imorais, lutaremos contra você. E nós podemos vencer.”

Alguns anos depois, a Shell esteve envolvida em outra polêmica num país africano. A companhia era acusada de apoiar a ditadura militar na Nigéria, e sofreu pesadas críticas em 1995, quando o escritor oposicionista Ken Saro-Wiwa e oito partidários, que lutavam contra a presença da multinacional no país, foram condenados à morte e executados. Paradoxalmente, o envolvimento da Shell na Nigéria obedecia à sua concepção de ética. Segundo Schwartz, a primeira Declaração de Princípios Gerais de Negócios estabeleceu a não-interferência em assuntos políticos dos países em que atuava. Como pano de fundo, havia a preocupação da companhia com as críticas contra as multinacionais que sustentavam e derrubavam governos na América Central. “A Shell achava que seu código era um modelo de comportamento ético, apenas para descobrir, do jeito mais duro possível, que as exigências da sociedade tinham mudado”, diz Schwartz. A Shell acabou, então, refazendo seu código e, em 1998, cancelou 69 contratos com empresas que não aderiram às suas políticas éticas, ambientais, de saúde e segurança. Mas continua na Nigéria, embora longe da região onde ocorreram os protestos de 1995.

Outro dilema: Bill Ford, bisneto de Henry Ford e atual CEO e chairman da Ford Motor Company, é um ambientalista de carteirinha. Como poderá manter-se fiel a suas idéias e, ao mesmo tempo, garantir a remuneração dos acionistas? Para Schwartz, Bill Ford não consegue. “Como sua empresa tem lucro? Vendendo o automóvel mais poluidor, o utilitário Explorer”, diz. “É a maior fonte de lucro da empresa. O que ele deve fazer? Destruir a companhia, mudar o produto, mudar a ética?”

Não existem santos

Um dos mais famosos casos de responsabilidade social — uma espécie de benchmark quando se fala de postura ética — foi protagonizado pela Johnson & Johnson em 1982. Na época, seu principal produto era o Tylenol, líder de vendas com 37% do mercado de analgésicos nos Estados Unidos. Os desafios éticos começaram quando seis pessoas apareceram mortas após ingestão dos comprimidos na região de Chicago. A empresa paralisou imediatamente a produção e a divulgação do Tylenol, ao mesmo tempo que fez um recall no país inteiro, retirando 31 milhões de frascos das prateleiras, ao custo de 100 milhões de dólares. As investigações concluíram que o envenenamento tinha sido obra de alguém que injetara cianeto nos remédios e os colocara de volta nas prateleiras das farmácias. Em poucas semanas, o Tylenol voltou ao mercado, e um ano depois recuperou a liderança, mas com 24% das vendas. Diretores da J&J revelaram depois que a decisão do recall foi tomada com base em seu código de ética, conhecido internamente como “Nosso Credo”. Mas, como para provar que não existem empresas santificadas, em 1995 a J&J deu sua pisada de bola, numa proporção que Enron nenhuma botaria defeito: a empresa simplesmente triturou pilhas de documentos relacionados a uma investigação federal que apurava se a companhia estava promovendo ilegalmente o remédio Retin-A, indicado no tratamento de acne, para que fosse usado como removedor de rugas.

A ética costuma lidar com questões difíceis. Por exemplo, a indústria de tabaco. Os ativistas antitabagismo do mundo inteiro não perdoam as grandes empresas do ramo por terem negado, até um passado recentíssimo (1998), as evidências dos malefícios do cigarro que há mais de 40 anos já eram reconhecidos pela comunidade científica. “Nossa postura, hoje, é reconhecer que o cigarro traz riscos de saúde sérios para determinados indivíduos em relação a determinadas doenças”, diz José Roberto Cosmo, gerente de responsabilidade social corporativa da Souza Cruz, no Rio de Janeiro. Tendo de lidar com uma legislação cada vez mais dura em relação a seu produto, a Souza Cruz optou por cumprir rigorosamente as exigências. “Temos o programa Cuidar, que já educou 90 000 alunos do ensino fundamental e médio sobre comportamentos de risco, e temos uma parceria com a Fundação Getulio Vargas para sensibilizar os varejistas a não vender produtos de risco a menores de 18 anos”, diz Cosmo.

Embora tenhamos a tentação de associar ética a convicções perenes, o fato é que os valores da sociedade mudam. Já foi considerado ético ter escravos. Já foi considerado ético revistar funcionárias na saída do trabalho para verificar se roubavam peças. “Na década de 70, havia empresas em São Bernardo que mantinham funcionários indisciplinados em cárcere privado”, diz Rosa, da USP. “Na década de 80, se você achasse uma mosca morta em seu iogurte, simplesmente jogava o produto fora. O lado bom do discurso ético é a apropriação da exigência de transparência e correção.” Outra vantagem é apontada por John Mein, diretor executivo do Instituto Ethos: “Às vezes, as empresas se comportam de certo modo por motivos mercadológicos. Mas, como ela é uma comunidade de pessoas, os valores podem se internalizar e mobilizar na direção da ética”.

Desde o ano passado, por exemplo, alguns valores mudaram na subsidiária brasileira da FMC, fabricante de defensivos agrícolas, de Campinas. “Estamos parando a chamada venda falsa, na qual o vendedor empurra para o cliente, no começo do ano, um produto que será usado somente em outubro”, diz Antonio Carlos Zem, presidente da FMC para a América do Sul. Esse tipo de operação é prejudicial por turbinar os relatórios de vendas. No caso de produtos químicos, também por aumentar o risco de manuseio — mas é prática razoavelmente comum no mercado. Outra prática eliminada pela FMC é conceder aval a agricultores para comprar fertilizantes. “Alguém inventou isso e nós seguimos”, afirma Zem. Funcionava assim: para cada dólar que o cliente comprasse de defensivo, a empresa avalizava 1 dólar de empréstimo para que adquirisse fertilizante. Ou seja: a FMC vendia, mas corria duplo risco. Podia não receber, e ainda ter de honrar o empréstimo do cliente. No mundo pós-Enron, a consultoria KPMG exigiu que essa operação constasse dos livros da corporação nos Estados Unidos. “Rapaz, ganhei uma visibilidade…”, diz Zem. “Eu tinha feito tudo com aprovação da chefia, mas pegou mal mesmo assim.” A FMC deve diminuir seu faturamento neste ano, dos 125 milhões de dólares de 2002 para algo entre 106 e 110 milhões, retirando de linha produtos que não dão margem satisfatória e diminuindo prazos de pagamento e estoques. É o custo de eliminar práticas duvidosas? “Podemos até perder algum espaço para os concorrentes”, diz Zem. “Mas é um espaço que não nos interessa muito, de clientes focados em manter estoque e rolar dívidas.”

Empresas responsáveis são as que aplicam a ética nos processos e nas decisões de negócios. Alguns exemplos: “A lei nos permite ter 5% de variação do princípio ativo no produto”, diz Zem. “Se você operar constantemente com 97%, está lesando o cliente. Se operar com 105%, está jogando dinheiro fora. Nós decidimos trabalhar com 102%.” A Método, empresa de engenharia com base em São Paulo, inclui uma dimensão ética na análise de contratação de pessoal. Eis uma das questões apresentadas no teste de contratação: “Seu pessoal está totalmente ocupado e, ao ganhar um novo contrato, você encontra dificuldade em montar uma equipe, mas tem informação de que há pessoas em outros núcleos com alguma ociosidade. O que você faria? E o que você acha que o chefe que tem ociosidade na equipe deveria fazer, já que ele conta com aquele pessoal para um contrato que deve ser fechado em breve?” Para a Método, não há respostas corretas nem erradas, o que é analisado é a forma como a questão é encaminhada, para ter certeza das preocupações éticas do candidato.

No laboratório farmacêutico Merck Sharp & Dohme, a ética está na lista de metas de cada executivo. “Meu bônus depende de cumprir objetivos em relação à ética”, diz Tadeu Alves, presidente da Merck no Brasil. Um dos compromissos de Alves é criar um centro para difusão de práticas de negócios responsáveis. A Merck é considerada uma empresa exemplar por não usar práticas comuns na indústria, de “sedução” dos médicos com presentes e viagens luxuosas para que indiquem seus remédios. (O laboratório os convida para congressos, mas a viagem é de classe econômica e sem acompanhante.) É também famosa por ter desenvolvido, em 1987, um remédio contra a oncocercose, chamada “cegueira dos rios”, que distribui gratuitamente no mundo inteiro. “Usamos isso como propaganda”, diz Alves. “A comunidade médica é sensível a essas iniciativas.” (Mesmo esse alto padrão ético não impediu que a Merck sofresse críticas pela “contabilidade criativa” de uma de suas controladas nos Estados Unidos no ano passado).

Na CPFL, o senso ético foi despertado no fim de 1999, quando eletricistas da empresa podaram árvores da avenida Orozimbo Maia, em Campinas, provocando protestos enérgicos dos moradores. “A poda buliu com a marca da empresa, com 90 anos de história”, diz Augusto Rodrigues, diretor de comunicação da CPFL. “Descobrimos que nossos processos estavam inadequados e percebemos que tínhamos de treinar eletricistas e gerentes para entender o impacto de suas ações na comunidade.” Na FMC, empresa na qual seus vendedores — por dever de ofício — trabalham à distância do escritório central, isso é feito com discussões sobre o assunto em todos os encontros. “Minha técnica é o management-encheção-de-saco”, diz Zem. “Estou sempre batendo na mesma tecla, alertando para a preservação da empresa, trazendo gente para orientar.”

Compensa? Afinal, ética traz resultados? Alguns, sim. Em geral, diferentes para cada empresa. Quando a Bahia Sul Celulose foi fundada, em 1992, criou um impacto no município de Mucuri, cuja economia girava em torno da pesca. “Com a chegada de gente de fora, aumentaram as exigências por melhores serviços, fazendo subir os preços na cidade”, diz Murilo Passos, presidente da Companhia Suzano, controladora da Bahia Sul. As ações sociais não só melhoraram o índice de satisfação da comunidade com a empresa (sim, a Bahia Sul mede isso, e o índice pulou de 56% em 1998 para 75% em 2001) como também permitiram promover mais contratações locais, reduzindo a rotatividade de trabalhadores (de 13% em 1993 para 7% em 1994, até chegar a algo em torno de 3% hoje em dia). Ou seja, menos custo.

No Unibanco, que instalou um comitê de ética no ano passado, o resultado é a proteção da imagem. No ramo financeiro, nenhum cuidado é considerado exagero. “A instalação da minha área teve um custo muito alto”, diz Márcia Klinke, diretora adjunta de Legal Compliance do Unibanco, que lida com risco reputacional. Mas vale a pena? “Lógico que vale. Estamos protegendo um bem caríssimo à empresa, que é a sua imagem. Estamos no mercado há 80 anos, e queremos permanecer”, afirma Márcia. Na empresa de engenharia Método, o código de ética foi estendido a toda a cadeia de valor. O documento foi negociado e assinado por todos os fornecedores. “A expectativa é que a gente comece a trabalhar sob a óptica da confiança”, diz Hugo Marques da Rosa, presidente da Método. “Isso elimina muitos custos, porque os sistemas de controle são caros.”

Em termos macroeconômicos, essa talvez seja a grande vantagem do comportamento ético. Como explicou o economista Ronald Coase, prêmio Nobel de 1991, o funcionamento dos mercados envolve custos de transação. Quando os agentes vivem num ambiente ético, a transparência diminui a ineficiência da falta de informações, e a confiança diminui os custos de controle.

Se dá resultado, então por que não são todos éticos, o tempo todo? Uma possível explicação é dada pela Teoria dos Jogos […]: a melhor situação para a coletividade é que todos os jogadores sejam éticos, mas o maior lucro individual é obtido quando os outros crêem que somos responsáveis, ao mesmo tempo que agimos com oportunismo. Esse modelo matemático se reflete na realidade? Em termos. Há variáveis como a apontada por Mein, do Instituto Ethos: o comportamento ético contamina. Também há variáveis não passíveis de medição, citadas por vários empresários entrevistados, como o orgulho de andar de cabeça erguida. A resposta mais honesta que se pode dar é: em alguns casos, ser ético traz compensação financeira, em outros casos não. Mas você não tem como saber antes de tentar.

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13 expressões racistas que precisam sair do seu vocabulário

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Imagem: Ana Maria Sena

Stephanie Ribeiro, Modefica

Vire e mexe me perguntam como não ser racista. E, sinceramente, eu acho a resposta tão complicada, afinal somos educados para o inverso: o racismo é imposto e naturalizado, e, mesmo não querendo (existem casos que ele é sim intencional), muitos acabam reproduzindo o discurso opressivo para com negros.

Desconstruir esse discurso, até em expressões simples e que aparentemente não parecem ser ofensivas, mas no fundo são, é necessário e urgente. Pensando em quebrar esse ciclo, te mostro 13 exemplos de racismo cotidiano presente em expressões e palavras que ouvimos com freqüência, mas que devem ser eliminadas do vocabulário já.

1- “Amanhã é dia de branco”

Qualquer pesquisa rápida no Google mostrará mais de uma origem para essa expressão, e a maioria negando que ela tem algum cunho racista. Porém, vivemos em um país onde a escravidão do povo negro durou mais de 300 anos, e os escravos, mesmo sendo forçados a trabalhar, geralmente eram vistos como “vagabundos”.

As conseqüências disso duram até hoje, o negro é sempre visto como a pessoa que faz “corpo mole”, aquele “malandro” que não faz nada. Inclusive, entre as opiniões que mais afloram quando o assunto é cotas sociais para negros, a de que não existe esforço da nossa parte é a mais frequente. Tanto que podemos fazer um paralelo entre essa e a expressão seguinte.

2- “Serviço de preto”

Comum no nosso dia-a-dia, essa expressão é usada para desqualificar determinado esforço e/ou trabalho, ou seja, fazer “serviço de preto” é igual a ser desleixado. O negro sempre é associado a algo ruim, o “bom” trabalho seria o do branco. Não dá para ser ingênuo e achar que não existe o teor racista, ainda mais quando associamos a outras dessas expressões que colocam o negro como o oposto de positivo, como:

3- “A coisa tá preta”

A expressão “a coisa tá preta” fala por si só: se a coisa está preta, é porque ela não está agradável, ou seja, uma situação desconfortável é o mesmo que uma situação negra? Isso é racismo.

4- “Mercado negro”

O mercado negro é aquele que promove ações ilegais, e mais uma vez é a palavra negro sendo usada com conotação desfavorável. O negro, na expressão, significa ilícito.

5- “Denegrir”

Já a palavra “denegrir” é recorrente quando acreditamos que estamos sendo difamados, é uma palavra vista como pejorativa, porém seu real significado é “tornar negro”. Se tornar algo negro é maldoso, temos mais um caso de racismo.

6- “Inveja branca”

Finalizando a leva de palavras e expressões que associam negro e preto à comportamentos negativos, o exemplo 6, que mostra a “inveja branca” como sendo a inveja boa, “positiva”.

7- “Da cor do pecado”

Outra expressão que faz a mesma associação de que negro = negativo, só que de forma mais subliminar, não recorrendo a termos como negro ou preto. Geralmente essa expressão é usada como elogio, porém vivemos em uma sociedade pautada na religião, onde pecar não é nada positivo, ser pecador é errado, e ter a sua pele associada ao pecado significa que ela é ruim. Não é uma expressão que remete a um adjetivo positivo, é simplesmente uma ofensa racista mascarada de exaltação à estética e, quase sempre, direcionada a mulheres negras.

8- “Morena”, “mulata” (por vim seguidos de tipo exportação)

Usado para mulheres e homens, mas mais comum serem usadas para descrever as mulheres, principalmente quando seguidas pelo termo “tipo exportação”. Aqui o objetivo é amenizar o que somos, “clareando” o negro. Não existe justificativa para negar que alguém é negro, possivelmente você pode estar incomodado em dizer “negro”, e se está é porque acredita que chamar alguém de negro é ofensivo, sendo assim embranquece a pessoa – transformando-a em “morena” ou “mulata”, e isso é racismo.

9- Negra “de beleza exótica” ou com “traços finos”

O 8 e 9 são próximos, quando se imagina que ser uma mulher negra bonita é ser “tipo exportação”, ter “traços finos” e assim poder ser a dona de uma “beleza exótica”. Ser negro e poder ser considerado bonito está relacionado a não ter traços negros, mas sim aqueles próximos ao que a branquitude pauta como belo, que é o padrão de beleza europeu. Sim, isso é racismo, e dos mais comuns que a gente vê por ai, estão nos hipersexualizando e exotificando quando usam essas expressões.

10- “Não sou tuas negas”

Facilmente explicável se lembrarmos de que quando se tratava do comportamento para com as mulheres negras escravizadas, assédios e estupros eram recorrentes. A frase deixa explícita que com as negras pode tudo, e com as demais não se pode fazer o mesmo, e no tudo está incluso desfazer, assediar, mal tratar, etc, etc.

11- “Cabelo ruim”, “Cabelo de Bombril”, “Cabelo duro” e, a mais desnecessária, “Quando não está preso está armado”

A questão da negação da nossa estética é sempre comum quando vão se referir aos nosso cabelo Afro. São falas racistas usadas, principalmente na fase da infância, pelos colegas, porém que se perpetuam em universidades, ambientes de trabalho e até em programas de televisão, com a presença negra aumentando na mídia. Falar mal das características dos cabelos dos negros também é racismo.

12- “Nasceu com um pé na cozinha”

Expressão que faz associação com as origens, “ter o pé na cozinha” é literalmente ter origens negras. A mulher negra é sempre associada aos serviços domésticos, já que as escravas podiam ficar dentro das casas grandes na parte da cozinha, onde, inclusive, dormiam no chão (sua presença dentro da casa grande facilitava o assédio e estupro por parte dos senhores). Pós-abolição, continuamos sendo estereotipadas como as mulheres da cozinha, já que somos maioria nos serviços domésticos, visto todas as políticas que tentaram e tentam barrar a ascensão negra.

13- “Barriga suja”

Outro termo que faz relação à origem é usado quando a mulher tem um filho negro. Se ela teve um filho negro, algo impuro – como uma “barriga suja” – explica esse fato. É uma das que mais me causa desconforto.

É claro que existem inúmeras outras expressões que apontam claramente o racismo no cotidiano, e, infelizmente, inúmeras pessoas, mesmo sabendo dos fatos e tendo acesso às explicações, vão dizer que tudo é pura banalidade e, provavelmente, continuar usando essas palavras e expressões.

Quando apontamos racismo, a tendência é ouvirmos algo como “não sou racista, tenho amigos e/ou parentes negros”, ou ainda “eu conheço um negro e ele não liga”. O mais irônico é que, quando um negro reproduz conceitos racistas, que vão desde achar que não existe racismo a não se incomodar de ser chamado de moreno, ou achar desnecessárias todas essas explicações aqui dadas, ele logo é taxado como sendo “um negro de alma branca”. Traduzindo: usam uma fala racista para “louvar” seu comportamento não questionador.

É necessário empatia e consciência para que essas palavras e expressões sejam abandonadas de vez. O objetivo desse texto é simples: ENEGRECER ideias.

O Público é Meu e o Privado também é…

O que é meu é meu! O que é público é meu também? A Escola, por exemplo, o professor da escola pública é de qualquer jeito, na escola privada o professor é só dedicação. Cultura equivocada, posso pichar os equipamentos ou estragá-los porque são públicos?

Rir ou Chorar? PUNIR!

Punir é o melhor caminho para os que acreditam que a propriedade do povo brasileiro é dele, individualmente. Coisas de um Juiz que acredita que o público é dele.

Pior, foi punido com aposentadoria, isso é, foi premiado. Agora ele pode não trabalhar e ganhar seu salário integramente, mais de R$ 30.000,00 por mês.

Tu compras o livro pela capa? Cuidado, quem vê cara não vê coração!

Não adianta achar que sabe porque leu o título. Tu compras o livro pela capa? Quem vê cara não vê coração, cuidado…

Juiz dá voz de prisão no Motel?

Lembram do juiz que deu voz de prisão para uma agente de trânsito que ousou dizer que “ele não era Deus”? Pois é, parece que esse tipo de carteirada por parte dos magistrados é bem mais comum do que se imagina.

IMAGEM WANDALIZADA

Lembram do juiz que deu voz de prisão para uma agente de trânsito que ousou dizer que “ele não era Deus”? Pois é, parece que esse tipo de carteirada por parte dos magistrados é bem mais comum do que se imagina.

O juiz Marcelo Baldochi chegou atrasado para um embarque no aeroporto de Imperatriz (MA) e ficou revoltado. Mesmo com o avião já em procedimento de decolagem, o juiz insistiu que teria o direito de embarcar. Sem sucesso, o excelentíssimo decidiu apelar para a divindade do cargo e deu voz de prisão a um funcionário da empresa aérea.

Onde já se viu impedir Deus um juiz de embarcar só porque chegou atrasado?

Bom, depois que o quiproquó aconteceu, vieram à tona outras “estripulias” que ajudam a compreender o comportamento escravocrata do nobre juiz. É que ele mantinha 25 escravos na fazenda Pôr-do-Sol, uma de suas propriedades no interior do Maranhão. Eles foram resgatados em 2007, após a denúncia de um fugitivo do grupo. Até um garoto de 15 anos foi encontrado ali. Em 2011, outros quatro trabalhadores na mesma condição foram encontrados numa outra Casa Grande fazenda em que o juiz criava gado.

Se até hoje ele não foi punido criminalmente por trabalho escravo, podemos imaginar como ele se sente confiante para mandar prender subalternos que não prestam um serviço ao seu gosto.

Fonte: https://br.noticias.yahoo.com/blogs/jornalismo-wando/wandnews-68-edicao-092445306.html

Juiz que deu voz de prisão ao não entrar em voo já usou escravos duas vezes

Leonardo Sakamoto

08/12/2014 13:13

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Atendentes da TAM receberam voz de prisão do juiz Marcelo Baldochi e foram conduzidos à Polícia Civil, em Imperatriz (MA), na noite deste sábado (6). O motivo: após chegar atrasado, o juiz não foi autorizado a embarcar em um voo que partia para Ribeirão Preto (SP).

De acordo com depoimento de funcionários do aeroporto a este blog e segundo um vídeo que está circulando na rede, inconformado com o que seria um desrespeito ao seu “direito de consumidor”, o juiz mandou prender os trabalhadores. A TAM disse, em nota, que segue os procedimentos de embarque previsto na legislação. O blog não conseguiu contato com o juiz ou com o delegado até o momento de publicação deste post. Os três funcionários foram liberados.

Mesmo tendo sido formalmente abolida, a escravidão está tão enraizada em nossas fundações que ainda rege as relações sociais por aqui. No mundo do trabalho, sabemos quem manda e quem obedece. E as consequências de não seguir à risca os papeis atribuídos a cada um.

Mas, um momento: eu disse “formalmente abolida”. Pois há quem continue sendo flagrado utilizando-se de formas contemporâneas de trabalho escravo. Como o próprio juiz Marcelo Baldochi.

Em 2007, um grupo móvel de fiscalização, coordenado pelo Ministério do Trabalho e Emprego, resgatou 25 escravos da fazenda Pôr-do-Sol, no município de Açailândia (MA), de propriedade do juiz. Entre eles, havia um adolescente de 15 anos. Os trabalhadores faziam a derrubada da mata e o roço do pasto para o gado, com exceção de duas mulheres, que cozinhavam para o grupo.

De acordo com o relatório, o grupo de fiscalização chegou ao local após denúncia de um fugitivo. O isolamento geográfico, a retenção de salários e a existência de dívida ilegal caracterizaram a situação encontrada como trabalho escravo. Na cantina, os trabalhadores contraíam dívidas com artigos alimentícios e equipamentos de proteção individual, como botas e luvas. As condições de alojamento eram degradantes e insalubres.

Até agora, Marcelo não foi punido criminalmente e o Tribunal Regional do Trabalho do Maranhão chegou a cancelar uma indenização concedida a um dos trabalhadores escravizados em uma das fazendas. O juiz também foi inserido na “lista suja do trabalho escravo”, cadastro do governo federal que relaciona os que foram flagrados usando esse tipo de mão de obra e que é usado como referência de bancos e empresas para cortar negócios, em dezembro de 2008. Mas saiu devido a uma liminar judicial em junho de 2009 – 18 meses antes do prazo regulamentar.

Através de sua atuação como magistrado, ele também interferiu em um julgamento de outro produtor, Miguel de Souza Rezende – que já foi flagrado mais de uma vez usando trabalho análogo ao de escravo em suas propriedades de gado no Maranhão. A ação do juiz, de autorizar a mudança de esfera para o julgamento desse réu, foi vista pela sociedade civil e pelo Ministério Público como danosa ao processo. Pois, com a consequente extensão do prazo, poderia contribuir com a prescrição do crime.

Enfim, em 2011, uma nova operação guiada por denúncias de trabalhadores resultou no resgate de quatro pessoas em condições análogas às de escravos na fazenda Vale do Ipanema, em Bom Jardim (MA), onde Marcelo Baldochi criava gado.

Fonte: http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2014/12/08/juiz-que-deu-voz-de-prisao-ao-nao-entrar-em-voo-ja-usou-escravos-duas-vezes/